Artigos Científicos

30 de Agosto de 2010
Manifestações Sistêmicas da Apnéia do Sono

Definitivamente o ronco perdeu a sua graça -  o que era motivo de risos entre os casais e suas famílias, foi perdendo ao longo dos últimos 10 anos o seu caráter jocoso. O simples fato de ser roncador, já aumenta em 3 a 5 vezes a chance do indivíduo vir a sofrer algum acidente cardiovascular, nos próximos 5 anos, sobretudo Infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral. Se o ronco faz parte da Síndrome da Apnéia Obstrutiva do sono (SAOS), este prognóstico adquire um caráter mais dramático. A SAOS é caracterizada por eventos recorrentes de obstrução da via aérea superior durante o sono, associados a sinais e sintomas clínicos.

Em resumo, a interrupção da ventilação completa (apnéia) ou parcial (hipopnéia) resulta invariávelmente em dessaturação da oxihemoglobina e ocasionalmente em hipercapnia. Estas paradas respiratórias promovem microdespertares (resposta adrenérgica), através do ronco “ressuscitativo”, com o desenvolvimento de bradi-taquiarritmias e elevação da pressão arterial, dentre outras adaptações do organismo ao que chamamos de “stress oxidativo”.

A SAOS é condição de alta prevalência universal, em particular nos homens acima de 40 anos e em obesos de todas as idades. Na cidade de São Paulo, por exemplo, em estudo epidemiológico de 2009 – 38,2% dos adultos triados por amostragem probabilística  tinham SAOS, comprovada mediante a realização de Polissonografia. As conseqüências cognitivas desta condição comprometem sobremodo a vida social e laborativa dos pacientes : sonolência excessiva, sono não-reparador, cefaléia matinal, diminuição da memória e da capacidade de concentração, irritabilidade, fadiga crônica e queda da libido. Esta sintomatologia contribue por exemplo, para tornar um portador de SAOS responsável por boa parte dos acidentes de trânsito em todo o mundo (chance 7 vezes maior).

Do ponto de vista sistêmico além das alterações neurocognitivas, as repercussões cardiovasculares da SAOS também já fazem parte de uma realidade que conhecemos bem, através da Medicina baseada em evidências. A relação mais bem comprovada é entre a SAOS e a Hipertensão Arterial Sistêmica ( HAS ) -  o estudo  Sleep Heart Health analisou 6132 indivíduos, demonstrando uma clara associação independente entre estas 2 variáveis, com aumento da prevalência de HAS em correlação linear positiva com o índice de apnéia e hipopnéia dos pacientes. Diversas outras investigações têm comprovado ao longo da década, esta associação e o que é mais importante – o tratamento da SAOS através da Pressão Aérea Positiva Contínua (CPAP Nasal), está associado à diminuição da pressão arterial sistêmica. Atualmente a SAOS já é considerada uma causa secundária da HAS. Adicionalmente a SAOS está fortemente associada a risco aumentado de morte súbita noturna, arritmias cardíacas, doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca congestiva.

As alterações metabólicas da SAOS, também seguem a mesma linha de evidências, e apesar da Obesidade ser um dos principais fatores de risco para a SAOS, hoje nós sabemos que a SAOS contribui de forma independente para o desenvolvimento da resistência a insulina e da intolerância a glicose. A resistência a insulina, independentemente do índice de Massa Corpórea (IMC) se correlaciona de forma positiva com a gravidade da SAOS  e com o índice de dessaturação da oxihemoglobina. Quem dorme mal engorda e quem dorme bem emagrece – ao contrário do que se pensava. Uma das razões para tanto diz respeito aos fatores humorais adipocíticos : a leptina e a adiponectina.

Os portadores de SAOS apresentam resistência periférica a leptina - um sacietógeno fantástico e também um estimulante respiratório. Desta forma, além de engordarem mais estas pessoas passam a ter mais instabilidade ventilatória na via aérea superior, durante o sono, fechando-se um ciclo vicioso desfavorável e crônico. Alguns outros dados são impressionantes – cerca de 25% dos pacientes com SAOS apresentam redução da libido e impotência, 90% dos acromegálicos têm SAOS e a SAOS já faz parte da Síndrome Metabólica. Em síntese, não podemos mais em nossa área de atuação profissional, continuar achando que estas evidências não nos dizem  respeito e negarmos aos nossos pacientes as oportunidades que nossos antepassados não tiveram !

Artigo publicado na Revista ABM nº 7

Dr. Francisco Hora Fontes
Mestre em Medicina Interna (Univ. Fed. da Bahia)
Doutor em Medicina (Univ. Fed. de São Paulo)
Professor da FAMEB / UFBA
Presidente da Associação Brasileira do Sono
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