Artigos Científicos

06 de Dezembro de 2018
Pensando o futuro da saúde

Pesquisa divulgada em junho pelo CFM mostrou que continua alta entre os brasileiros a percepção negativa sobre a saúde no Brasil, tanto na esfera privada quanto pública. A área é vista como péssima, ruim ou regular por 89% da população, e boa parte dessa carga decorre da experiência vivenciada por 150 milhões de pessoas que dependem exclusivamente da rede do SUS para fazer uma consulta, um exame ou uma cirurgia.

Essa insatisfação decorre, sobretudo, do longo tempo de espera para que o cidadão obtenha uma resposta do SUS para sua demanda. Essa é a visão de 24% dos entrevistados. Além desse problema, a população entende que contribuem para a má avaliação a falta de recursos financeiros para o SUS (15%) e sua má gestão administrativa e operacional (12%), assim como a falta de médicos (10%) e a dificuldade para marcar ou agendar consultas, cirurgias e procedimentos (10%), entre outros pontos.

Ao avaliar, de modo específico, o tempo de espera que se destaca nesse ranking, é fácil verificar que, para a população, esse é o maior gargalo na rede pública. Ele é o principal vilão para 82% dos entrevistados que buscam uma consulta, 80% dos que precisam de um exame de imagem e para 79% dos que aguardam uma cirurgia. Infelizmente, a situação tende a se agravar.

No período de coleta dos dados, em maio de 2018, do total de 2.087 entrevistados, 34% aguardavam para fazer uma cirurgia, 32% buscavam uma consulta médica, e 31%, exames. Porém, chama a atenção que o SUS está levando cada vez mais tempo para responder às solicitações.

Em 2014, uma pesquisa do mesmo tipo identificou que 29% dos que haviam pedido exame, cirurgia ou consulta ainda aguardavam um desfecho após seis meses. Em 2018, esse percentual passa a ser de 45%. O mesmo ocorreu com o índice dos que aguardam há mais de 12 meses, que passou de 16%, em 2014, para atuais 29%, praticamente duas vezes mais.

No entanto, um estudo do Datafolha feito a pedido do CFM revela que apesar de ter uma avaliação negativa pela maioria dos entrevistados, o SUS é visto como uma política que deve ser mantida e aperfeiçoada. Ou seja, o brasileiro reconhece sua importância e, se lhe dá nota ruim, não significa que o rejeite.

A valorização do SUS como política social relevante aparece com ênfase na pesquisa. Para 88% dos entrevistados, o Sistema deve ser mantido no País como modelo de assistência de acesso universal, integral e gratuito para os brasileiros, conforme previsto em seus princípios e diretrizes legais. Contudo, a população está atenta e sabe que há um longo caminho a ser percorrido para colocá-lo nos trilhos.

Em primeiro lugar, acredita-se ser necessário fortalecer o financiamento do SUS, conforme explicitam 53% dos entrevistados, que alegam que não há recursos suficientes para atender bem a todos. Contudo, a própria população sabe que o dinheiro renderá apenas se houver boa gestão: 83% acham que as verbas públicas destinas ao Sistema não são bem administradas.

Essa é a opinião da maioria. Para 62%, o SUS não tem gestores eficientes e bem preparados, o que revela uma percepção de incompetência administrativa decorrente, em grande parte, de questões sentidas no cotidiano das unidades de saúde, em todos os níveis de complexidade.

Por exemplo, os brasileiros relatam grande dificuldade de acesso a atendimento e serviços no âmbito do SUS, sobretudo para consultas com médicos especialistas (74%), cirurgias (68%), internação em leitos de UTI (64%), exames de imagem (63%), atendimento com profissionais não médicos, como psicólogos, nutricionistas e fisioterapeutas (59%) e procedimentos específicos (diálises, quimioterapia, radioterapia etc.), com 58%.

Esses altos percentuais apenas materializam o impacto na vida das pessoas da pouca oferta de leitos para internação e UTI, da falta de insumos nas unidades básicas de saúde e da desmotivação dos médicos e outros profissionais da área, que sofrem, tanto quanto os pacientes, com as lacunas em termos de infraestrutura e de inexistência de planejamento nas ações empreendidas.

Como forma de oferecer pistas aos que se apresentam nas eleições de 2018, a pesquisa CFM/Datafolha procurou identificar a expectativa dos brasileiros a respeito da atuação desses candidatos após a posse, se forem vencedores em seus pleitos.

O recado dado de modo assertivo indica que, para fazer frente aos problemas na área, os cidadãos querem medidas que: combatam a corrupção na área da saúde (26%); reduzam o tempo de espera por consultas, exames, cirurgias e outros procedimentos (18%); aperfeiçoem a fiscalização dos serviços na rede pública (13%); fomentem a construção de mais postos e hospitais (11%); e garantam a oferta de melhores condições de trabalho e de remuneração para médicos e outros profissionais da área (9%).

Diante dessa declaração dos brasileiros, o bom candidato – conectado aos interesses coletivos – assumirá compromissos públicos com a defesa do SUS, um dos mais importantes avanços alcançados pela sociedade e que, em 2018, completa 30 anos. Essa é nossa esperança para que melhores dias cheguem.

Evidentemente, esse compromisso não impedirá que o SUS, enquanto política social, passe por um democrático e amplo processo de avaliação. Contudo, ao contrário do que defendem alguns segmentos, esse debate terá um objetivo: desatar os nós da assistência, sem trazer ameaças de extinção ou de mudanças que eliminem o que o SUS oferece de mais moderno: acesso universal, integral e com equidade à assistência.

Atentos aos problemas que afetam a saúde e o bom exercício da medicina, é importante reconhecer o que os números revelam: a saúde não pode ser ignorada pelos candidatos e, para atender os anseios legítimos da população, deve ser tratada com seriedade. É tempo de abandonar os anúncios midiáticos e dar o que os brasileiros cobram: planejamento, mais recursos e boa gestão. Só assim o País terá a saúde que merece, conforme prevê a lei.

Jecé Freitas Brandão
2º vice-presidente do Conselho Federal de Medicina
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