Dr. Nestor L. Müller
Dr. Nestor L. Müller
30/08/2010
11:46
Diagnóstico das doenças pulmonares difusas

Embora a radiografia de tórax seja, na maioria das vezes, o primeiro método de imagem utilizado na avaliação de pacientes com problemas no pulmão, a tomografia computadorizada de alta resolução (TCAR) é o método mais indicado na avaliação das doenças pulmonares difusas. Isto porque é capaz de evidenciar detalhes anatômicos do parênquima, parte do pulmão onde estão os alvéolos, brônquios e bronquíolos, e interstício, rede de fibras do tecido pulmonar, não observáveis no exame de raio-X. Os avanços no diagnóstico das doenças intersticiais difusas foram detalhados no evento de atualização promovido pela Diretoria Científica da Associação Bahiana de Medicina (ABM), em abril, com a participação do médico brasileiro Nestor L. Müller, considerado uma das maiores autoridades mundiais em Radiologia Torácica.

Com mais de 10 livros publicados em várias línguas e mais de 350 publicações em revistas médicas, Nestor L. Müller é professor de Radiologia da Universidade British Columbia e chefe do Departamento de Radiologia do Hospital de Vancouver, no Canadá. Em sua carreira, tem atuado como professor convidado em conceituadas instituições, entre as quais a Harvard Medical School, Stanford University, Johns Hopkins University, Duke University, Cornell University e Cambridge University.
Müller se formou em Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1972. Logo após, fez residência em Pediatria na University of Manitoba, no Canadá, país onde fixou residência. “Me interessei pela pneumopediatria, então fui me aperfeiçoar em fisiologia respiratória na Universidade de Toronto, onde decidi me especializar em Radiologia”, comenta. Em Vancouver, ele contribuiu para a formação de vários médicos brasileiros, inclusive como grande incentivador do grupo de radiologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). Neste intercâmbio se sobressaíram especialistas como a médica baiana Isabela C. S. Silva, co-autora de trabalhos científicos e esposa de Müller, responsável pelas vindas cada vez mais constantes do especialista à Bahia.

Conferencista em eventos científicos no mundo inteiro, ele intensificou seus laços profissionais com o Brasil nos anos 90. Na época, um fato prosaico o aproximou de um dos grandes nomes da Pneumologia no país, Jorge Kavakama. “Cheguei em São Paulo para dar um curso e minhas malas extraviaram. Com toda gentileza e disposição, Dr. Jorge se dispôs a passar horas comigo em um shopping até achar um sapato que servisse, pois o meu número é 44”, lembra bem humorado do amigo pneumologista, bastante querido do meio médico, que faleceu precocemente. Na entrevista a seguir, Nestor Müller fala sobre desafios, perspectivas e oportunidades em sua área de atuação.

O que pode ser destacado na evolução da tomografia desde o advento deste método de diagnóstico por imagem?
Nos últimos 25 anos, houve uma importante evolução na tomografia. Os equipamentos que antes faziam uma varredura linear passaram a fazer movimentos de rotação contínuos com multidetectores. A tomografia computadorizada (TC) espiral tem grande especificidade no diagnóstico de tromboembolismo pulmonar agudo, entre outras patologias, além e possibilitar uma melhor avaliação das artérias pulmonares. Permite a reconstrução espacial da imagem, em cortes milimétricos, com grande acurácia na identificação e diferenciação de doenças e melhor visualização anatômica do interstício do parênquima pulmonar.

Como é a medicina praticada no Canadá?
As 16 universidades que formam médicos atuam em sintonia com a demanda, pois cada Província estabelece o número de médicos e a quantidade por cada especialidade. É concedido um ganho adicional de 30 a 40% para aqueles que atuam no interior, além da disponibilidade de mais vagas de trabalho em áreas que precisam de maior cobertura no atendimento à população. O profissional de medicina paga um custo único pelo seguro de responsabilidade civil contra erros médicos. O Sistema Nacional de Saúde assegura total cobertura ao paciente hospitalizado.

Como o Sr. avalia a radiologia praticada no Brasil?
A radiologia praticada nos grandes centros do país é compatível ao que se pratica na América do Norte. Os nomes brasileiros de maior destaque na radiologia torácica e na pneumologia tem um alto nível equivalente aos colegas de projeção de países de primeiro mundo.

Quais são os principais desafios do trabalho médico na área pulmonar?
É preciso que haja uma correlação maior entre o diagnóstico por imagem, a patologia e a fisiopatologia. Esta integração do trabalho clínico, radiológico e patológico é fundamental para melhor entendimento da doença e para o seu seguimento até o resultado final. Aprender uns com os outros, promovendo a troca de experiências e o diálogo entre especialistas destas áreas é uma tendência mundial.

Qual a sua opinião em relação à telemedicina?
A telemedicina representa grandes vantagens e grandes riscos. É muito útil fazer a consulta a um radiologista a partir de um lugar remoto em cidades menores, que não contam com o médico especialista. Porém, o problema é a leitura do relatório sem o contato com o clínico ou o cirurgião, sem o interesse de fazer o acompanhamento e sem o compromisso com o paciente. Aí o risco é maior do que o benefício.

Como está se desenhando o futuro para a radiologia?
Na tomografia haverá uma redução significativa da radiação, além do desenvolvimento de fármacos mais específicos. A previsão é de que haja um incremento na utilização do PET/CT, equipamento que agrega os recursos da medicina nuclear e da radiologia e tem notável aplicação na oncologia, pois revela alterações no metabolismo antes mesmo da anatomia ser afetada. Com a radiologia, há uma tendência de aumentar a realização de procedimentos por endoscopia no lugar da cirurgia convencional.

Como estão as diretrizes e protocolos na área das doenças intersticiais?
As doenças intersticiais constituem um conjunto heterogêneo de patologias. As diretrizes mais recentes indicam que no contexto clínico adequado a tomografia permite fazer o diagnóstico final da fibrose pulmonar idiopática, prescindindo da biópsia em 50 a 70% dos casos. Os multidetectores dos tomógrafos e última geração identificam a presença de nódulos na maioria dos pacientes acima de 50 anos, a maior parte deles benignos. Não há estudos conclusivos sobre a repetição da tomografia para acompanhamento dos nódulos. Desafios como este evidenciam que o dia-a-dia do radiologista torácico exige dedicação e constante aprimoramento.

Artigo publicado na Revista ABM nº 7 

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